Quase 50 anos depois da 38ª Bienal de Veneza, a Galatea inaugura, no dia 20 de agosto, “Representações brasileiras – Bienal de Veneza (1978)”, exposição que revisita a representação brasileira concebida pela pesquisadora e curadora Lélia Coelho Frota para a mostra italiana. A coletiva lança um novo olhar sobre uma curadoria inovadora que, ainda em 1978, levou a um dos principais eventos de artes internacionais uma leitura heterogênea da produção artística no país.
Realizada entre 2 de julho e 15 de outubro de 1978, a 38ª Bienal de Veneza, intitulada “Da Natureza à Arte, da Arte à Natureza”, foi marcada pela aproximação entre arte e questões ambientais. Dentro desse contexto, coube a Lélia Coelho Frota pensar a representação nacional e responder ao tema da Bienal a partir da própria diversidade cultural, social e territorial do país.
A exposição na Galatea reúne obras de diferentes períodos dos artistas que integraram a participação brasileira: Carlos Fajardo, Geraldo Teles de Oliveira (G.T.O.), Júlio Martins da Silva, Luiz Aquila, Maria Auxiliadora, Madalena dos Santos Reinbolt, Paulo Garcez e Wilma Martins, além de trabalhos das comunidades indígenas do Alto e Médio Xingu e do paisagista Roberto Burle Marx, apresentados em Veneza por meio de trabalhos audiovisuais comissionados ao cineasta Marcelo Tassara.
A proposta de Lélia partia da diversidade de modos de viver e habitar o território brasileiro. Em vez de construir uma imagem única do país, ela aproximou artistas de diferentes origens e trajetórias, colocando em relação produções ligadas ao circuito da arte contemporânea e trabalhos de artistas autodidatas que encontravam pouca receptividade no mercado e no circuito institucional justamente por serem classificadas como não acadêmicas, não canônicas ou pertencentes ao campo da arte popular.
Sem privilegiar uma linguagem específica, a curadora colocou lado a lado pintura, desenho e escultura e aproximou experiências que partiam de relações distintas com a paisagem, a cidade e o campo, o espaço doméstico e a vida coletiva. O princípio que orienta a exposição é revisitar, a partir do acervo da galeria, os percursos dos artistas brasileiros que nela participaram da sua montagem em 1978, reunindo sobretudo produções de períodos próximos aos da Bienal e ampliando a leitura sobre suas pesquisas.
Da escultura em madeira de Geraldo Teles de Oliveira (G.T.O.), em que figuras humanas e animais se sobrepõem e parecem se prolongar umas nas outras, às paisagens de Júlio Martins da Silva, a relação com a natureza assume formas distintas. Nas pinturas de Martins, casas, caminhos, jardins, árvores e corpos d’água organizam cenários povoados por pequenas figuras, animais e detalhes do cotidiano, construindo paisagens que oscilam entre o reconhecível e o imaginado.
A obra de Maria Auxiliadora acrescenta ao conjunto uma cena em que a presença humana e a experiência cotidiana ocupam o centro da composição. Os desenhos de Paulo Garcez se aproximam da escrita e da construção de universos que parecem surgir de dentro da própria superfície do papel. Já em Wilma Martins, é o espaço doméstico que se transforma: animais, plantas e outros elementos naturais invadem cozinhas, móveis e interiores, criando uma espécie de natureza fantástica dentro do ambiente urbano.
Em ambos, o traçado aparece como território de passagem entre o que é visto e o que é imaginado. Ao reunir novamente esses artistas em São Paulo, a exposição estabelece uma ponte entre dois momentos da história da arte brasileira. Se, em 1978, Lélia Coelho Frota conduziu um movimento precursor em apresentar arte popular brasileira no exterior, hoje o reencontro com esses artistas acontece em um cenário de renovado interesse por artistas e produções que permaneceram à margem das narrativas dominantes da arte brasileira.
Representações brasileiras – Bienal de Veneza (1978) retoma essas pesquisas não apenas como registro de uma representação histórica, mas como uma oportunidade de revisitar a produção de artistas importantes para debates que permanecem atuais no campo das artes visuais brasileiras
Amostra vai até 17 de outubro de 2026. A Galatea fica na R. Padre João Manuel, 808 – Térreo, São Paulo. Funcionamento: de segunda a quinta: 10h às 19h, sexta das 10h às 18h, e sábado: 11h às 17h. Entrada gratuita.