Centro Cultural Correios | Reencantar a terra, de Matheus Ribs
O artista visual carioca Matheus Ribs inaugura, na quarta-feira 19 de agosto, a sua primeira exposição institucional no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Correios. Com curadoria de Clara Anastacia e Juão Nÿn, “Reencantar a terra” parte da ideia de que enfrentar a devastação ambiental exige também recuperar outras formas de relação com a terra e seus habitantes, baseadas na abundância, na reciprocidade, na espiritualidade e no cuidado.
Para Matheus, o processo colonial introduziu na América uma lógica de escassez em territórios historicamente marcados pela abundância. A exploração dos recursos naturais, a expropriação da terra, povos dominados e escravizados e a consequente produção da miséria aparecem, não como fenômenos isolados, mas como parte de um projeto histórico de transformação da relação entre sociedade e natureza.
Essa reflexão ganha forma em um dos painéis centrais da exposição, no qual uma mulher negra e uma mulher indígena carregam cestos repletos de alimentos tradicionais na América Latina (milho, mandioca, inhame, coco, banana, entre outros) que são também aqueles oferecidos aos orixás em diferentes práticas do candomblé. Sobre a terra, as personagens derramam água, evocando um ditado yorubá segundo o qual somente a água fresca apazigua o calor da terra.
A água torna-se, assim, um dos principais fios condutores da exposição. O artista recorre ao Itan (narrativa sagrada) de Oxum, no qual ela retira a água do mundo como forma de protesto por não ser ouvida pelos demais orixás. Sem água, a vida deixa de se reproduzir: as crianças não nascem, as plantas não crescem e os alimentos não prosperam. Quando Oxum é finalmente escutada, devolve a água à terra e a vida retorna. É nesse gesto que o artista identifica uma das chaves de sua exposição: a água como força capaz de reencantar a terra.
A partir dessa perspectiva, a mostra aborda os conflitos coloniais e contemporâneos em torno dos recursos hídricos: mineração, barragens, hidrelétricas e as diferentes formas de devastação. Em uma das séries, as sereias tornam-se representações dos rios brasileiros. Cada figura reúne, em seu corpo, referências ao povo indígena que vive às margens de determinado rio e a um peixe característico de suas águas. Tapajós, Paraguai, Doce, Xingu, São Francisco, Iguaçu e Tocantins aparecem, assim, como uma espécie de cartografia afetiva e espiritual do território brasileiro.
Reencantar a terra, individual de Matheus Ribs
Centro Cultural Correios | R. Visconde de Itaboraí, 20 – Centro
Abertura: quarta-feira, 19 de agosto de 2026, às 16h
Visitação: 19 de agosto a 10 de outubro de 2026
Funcionamento: de terça a sábado, das 12h às 19h
Entrada gratuita